terça-feira, 4 de novembro de 2008

Às vezes


Gosto de escrever poemas pequenos, sintéticos.
Desta vez, não foi assim e gostei muito de o escrever.


Às vezes perco-me
nas consoantes
e apaixono-me perdidamente
por vogais
que se entrelaçam
no bico do lápis
e desarrumam
as linhas
do pensamento.

Outras vezes
convoco os verbos
e derrubo as preposições
acalmando os ânimos
das mãos
e espalhando os estilhaços
da irregularidade.

De vez em quando
os adjectivos
não comparecem
e os advérbios
foram ver o mar
e apagá-los é simples
mas doloroso
e portanto eu às vezes
escrevo e não escrevo
e finjo que me perco
e não convoco,
não acalmo
e não apanho os fragmentos
das palavras mortas.

Também não compareço
porque talvez tenha
ido ver o mar
e apago uma a uma
as surdas sensações
de escrever o desatino
e deslizo no impulso
de momentaneamente
perder o olfacto
do poema...


Foto: Viajantis

10 comentários:

wind disse...

Excelente!
Beijos

Eduardo Aleixo disse...

os adjectivos e os advérbios fazem bem.vão ver o mar. gostei. não gosto de adjectivos no poema. tu foste atrás para veres o mar. mas já tinhas escrito o poema. com adjectivos e advérbios. não gosto deles. mas contigo os poemas são sempre bonitos. poemas de palavras, claro. lindas, soberbas, luminosas pombas. stop. que eu também gosto de ser sóbrio de vez em quando. beijo calado.
EA

peciscas disse...

Pois olha que gostei particularmente deste poema com mais palavras do que é costume em ti.

A. Jorge disse...

Nunca a gramática foi tratada de uma maneira tão bela como esta.

Estás perdoada por não comparecer, afinal foste ver o mar!...

E agora deixa-me dizer que achei soberbo o comentário do "Eduardo Aleixo", aqui em cima.

Um beijo

Jorge

Carla disse...

adoro a tua escrita...mas este poema é um dos que mais gostei
beijos

Pedro Arunca disse...

LINDO E BELO.

O mar te sujeita e nele te adjectivas. Manténs vivas as marés
do verbo. "Navegar é preciso".

~~~~~< º >~~~~~~^^~~~~~~^^~~~^~~~-
--~~~~/ \~~~~~-~<>~»~~»~~»~»»~~~~<>
Bjs

xistosa - (josé torres) disse...

Nem sempre conseguimos parar a força do bico do lápis.
Deparamo-nos com a janela aberta e as palavras vão entrando ... será que não teremos o seu olfacto?

Quando se perder que seja nesta maneira de escrever ...

Verdinha disse...

J'ai beaucoup appris sur la langue portugaise en lisant ton poème.
Tu joues si bien avec les mots, chère amie Paula !
Bisous verts

Maria Clarinda disse...

Às vezes perco-me
nas consoantes
e apaixono-me perdidamente
por vogais
que se entrelaçam
no bico do lápis
e desarrumam
as linhas
do pensamento.
(...)

Palavras não tenho...sei que continuo a adorar os teus poemas...as palavras lindas...em cada entrelinha deste meu comentário, está tudo o que gostaria de te dizer mais...e a mim faltam as palavras.
Jinhos!

Viajantis disse...

E como é bom por vezes ir ver o mar e deixarmos os nossos pensamentos flutuarem ao ritmo da ondulãção!!!